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"Nunca fui meio alguém, apenas nunca encontraram a outra metade de mim." (by Cleide Valla)
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Cartas e Almas/Letters and Souls

As cartas, mais do que os beijos, juntam Almas - John Donne
10/4/2009

"Todo Cambia" by Mercedes Sosa

 

Hoy, cuando me desperté con la noticia de la muerte de Mercedes Sosa, mi corazón estaba presa de una profunda tristeza. Al escuchar algunas de sus canciones como "Alfonsina y el Mar", "Gracias a la vida", "Todo Cambia", "Solo le pido a Dios", "Yo Vengo Ofrecer Mi Corazón" y otras, fue tomada por un sentimiento de pérdida. En el deseo de comprender este sentimiento, me puse a caminar por los laberintos de mi corazón y encontró Mercedes Sosa con su voz profunda y que, como pocos cantantes, canta con el alma. 
  
Yo  cuando adolescente fue sin duda mucho más soñadora y romántica que la mayoría de las chicas de mi edad. Recuerdo la primera vez que oí la voz de Mercedes Sosa cantando "Alfonsina y el Mar", quedé muy impresionada y fue llevada por una curiosidad incesante, para saber el significado de la música. La melodía era hermosa, la voz de Mercedes Sosa era absolutamente preciosa. Mi alma ciertamente lo entendía todo, pero mi intelecto no.

Fue allí exactamente en este momento presente de mi vida, me decidí a estudiar español.
Hoy sé que el aprendizaje de otro idioma (hablar y escribir), no es fácil. Pero en ese momento mi meta con el español no iba a hablar o escribir bien, lo que yo quería era entender la poesía que la voz profunda que cantaba a mi alma.

Muchas personas deciden las cosas en sus vidas y seguen el camino trazado por estas decisiones, pero no siempre reconoce cuándo y bajo qué circunstancias las opciones han cambiado la ruta de acceso.

El idioma español me abrió muchas puertas. Estas puertas me han dado muchas alegrías y madurez. Comprerendi un poco más de sentimientos. Aprender un idioma es también una forma de entender otras culturas y sus expresiones únicas de los sentimientos.
Dios es sabio, realmente nos ama, porque nos presenta la posibilidad de aprender en una sola vida, diferentes formas de expresar sentimientos.

Esta mañana, mientras caminaba en el laberinto de mi corazón, recordando mis decisiones y, sobre todo, la influencia de la voz de Mercedes Sosa en él, lloré.

"Todo Cambia"

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi
amor...

9/5/2007

Chuva by Mariza

 
 
(Clique acima para ver e ouvir "Chuva com Mariza)
 
As coisas vulgares que ha na vida / (The usual things in your life)
Nao deixam saudades / (won't make you miss them){"saudade" is a word that can't be translated}
So as lembrancas que doem / (only the hurting memories )
Ou fazem sorrir / (or those which make you smile)
Ha gente que fica na historia / (there are some people who stay in history)
da historia da gente ( our life's history)
e outras de quem nem o nome ( and other who we don't even remember)
lembramos ouvir / (hearing their names)
Sao emocoes que dao vida / (it are the emotions that bring life)
A saudade que trago (to the "saudade" that i bring in me)
Aquelas que tive contigo /(those i had with you)
e acabei por perder /(and i've just lost)
Ha dias que /(There are days that)
marcam a alma e a vida da gente /(that leave marks in your soul and in our life)
e aquele em que tu me /(and the one that you've)
deixaste nao posso esquecer /(left me i can not forget)

A chuva molhava-me o rosto /(The rain felt in my face)
Gelado e cansado /(frozen and tired)
As ruas que a cidade tinha /(the streets that the city had)
Ja eu percorrera /(i've went along through them)
Ai... meu choro de moca perdida /(ohh... my young lost girl cry)
gritava a cidade /(I screamed to the city)
que o fogo do amor /(that the fire of love)
sob chuva /(under the rain)
ha instantes morrera /(died moments ago)

A chuva ouviu e calou /(the rain listenned and silenced)
meu segredo a cidade/(my secret to the city)
E eis que ela bate no vidro (and there she knocks on the window glass)
Trazendo a saudade (bringing with her the "saudade")

The song"Chuva" from the fado portuguese singer Mariza. The Lyrics and Music by Jorge Fernando. 
Movie, Translation and  edited by tojoferreira. 
{"saudade" is a felling that you have when something you like is far away or lost. It's like missing something
I miss you would correspond in portuguese to : Tenho(have) "saudades" tuas(of you)}

 

Eu nao seria eu ou eu descobriria que jah estava morta se nao sentisse milhares de borboletas coloridas em meu estomago e inumeras libelulas saltitanmtes em minha mente ao ouvir esta belissima musica.
Que bom retornar a minha page...  meu particular Pier... minhas cartas... parte deminha alma... meu coracao...
Dedico este post a todos que me visitaram (deixando rastro ou nao), aos que deixaram simpaticos scraps e aos que me enviaram e-mails. Irei me atualizar e contestar a todos.


 
3/15/2007

Adolpho by Benjamin Constant

"...Todo sentimento precisa de um passado pra existir
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca
Ele nos dá a consiência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que a pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."

Quando ouvi pela primeira vez esta definição de "tempo" para o amor, eu fiquei encantada e deduzida. Como não poderia me sentir assim, pois novamente estava Ana Carolina dando forma gramatical ao meus sentimentos. Era exatamente o que eu andava me questionando, quanto ao tempo para  a existência do amor.  Quando consigo encontrar respostas para minhas inquietudes, fico como se tivesse encontrado um tesouro!  Passei muitos dias "arrebatada" por este encanto e sedução, até que decidi pesquisar um pouco mais. Descobri que na verdade não era um poema como eu  supostamente pensava. Trata-se de um trecho do livro de Benjamin Cosntant (escritor Suíço, 1767-1830), chamado "Adolpho".   Estre trecho verbalizado por Ana Carolina no DVD de seu show, no livro Adolpho é um pouco maior e completo: 

"O amor supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica. Todas as outras afeições necessitam de um passado: o amor cria, como por encanto, um passado de que nos cerca. Dá-nos, por assim dizer, a consciência de havermos vivido anos a fio com alguém que há pouco era quase um estranho. O amor é só um ponto luminoso, e, contudo, parece apoderar-se do tempo. Há poucos dias não existia, logo mais, deixará de existir: mas enquanto existe esparge sua claridade sobre o tempo precedente e sobre o tempo que o sucederá".

 

2/22/2007

Passáro sem Asas by Anabela Alves da Cruz

"Sinto que me cortaram as asas...
 Sou como um pássaro sem asas, que nao sabe nem consegue voar.
 Se é asssim já não sou pássaro, já nao sou nada.
 Sou só matéria.
 Adoeceu o melhor que eu tinha..."  (
20-04-04)
 
 
Somente agora entendo todos  os sentimentos intrínsecos em suas palavras.
 
2/8/2007

The beginning of happiness by Clarissa Voughan

I remember one morning
Getting up at dawn
There was sush a sense of possibility, you know…
And I remember thinging  to mayself:
“This is the beginning  of happiness.   This is where it stars.   And of course there´ll always be more.”
It never occurred to me. It wasn´t  the beginning.
It was happiness. It was the moment. Rigth than.
 
 
Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer.
Havia tamanha sensação de possibilidades, sabe essa sensação...
Eu me lembro de ter pensado:
“Este é o início da felicidade.  É aqui que ela começa. E, sem dúvida, haverá muito mais.”
Nunca me ocorreu que não era o começo.
Era a felicidade. Era o momento. Naquele exato momento.
 
 
 
 
Querida Clarissa,
 
Desde "As Horas" já se passaram muitas manhãs em que eu me despertei com esta tamanha sensação de estar vivendo o início da felicidade. De despertar com o coração transbordando de alegria por sentir que estava vivendo o começo da felicidade e achar que esta sensação seria para sempre. Por pensar que era o começo da felicidade e que haveria muito mais, deixei de expressar a alegria de minha felicidade no exato momento em que estava sentindo, pois pensava  que poderia vive-la muito mais. Ainda não aprendi que tal sensação não era o começo, mas sim a própria felicidade naquele exato momento.  É  como ter um ovo nas mãos e sentir a clara dissipando por entre os dedos, separando-se difinitivamente da gema. Clara e gema nunca mais serão uiniforme, nunca mais serão um ovo. Contudo, cada manhã que minha mente desperta, levanto apressada e corro, cruzando os  labirintos  de meu coração até chegar  na encosta de meu particular  e verde mar. Ali, como que atracada, fico no  pier observando todos os movimentos e perfumes. Meus olhos são como um faro candeeiro  buscando  pela chegada desta sensação de possibilidade de felicidade. Que ela atraque em meu pier e que ali ela  permaneça um pouco mais pois, um breve momento, ainda me parece  lacônico demais.
 
Sempre com carinho
Gaia
1/12/2007

Aedh wishes for the Cloths of Heaven by William Butler Yeats

 Had I the heavens embroidered cloths,
 Enwrought with golden and silver light,
 The blue and the dim and dark cloths
 Of night and ligtht and the half light,
 I would spread the cloths under your feet:
 But I being poor, have only my dreams;
 I have spread my dreams under your feet;
 Tread softly because you tread on my dreams.
 
 

Seria um abraço longo e especial, sem pressa. Um abraço apertado. Apertado o bastante para aproximar nossos corpos e sentir o compasso de nossa respiração.  Eu alinharia seus cabelos  prendendo-os  com cuidado entre meus dedos.  Contornaria suas sobrancelhas e desceria minhas minhas mão até suas orelhas... Seguraria com doçura o seu rosto em minhas mãos. Com a ponta de meus dedos, tocaria com curiosidade os seus lábios, e com muito cuidado  eu os contornaria também.  Com as palmas de minhas mãos tocaria com muita suavidade os cílios de seus olhos para fecha-los. Quando assim vc estivesse, de olhos fechados, minha boca buscaria encontrar seu ouvido e bem baixinho, com voz de ode,  eu emprestaria as poéticas palavras de William Butle Yeats para declarar meus secretos e verdadeiros sentimentos...

"Se eu tivesse os trajes bordados do céu,
 adornados com luz dourada e prateada,
 e os trajes escuros, sombrios e azuis da noite,
 à luz e à meia-luz, eu estenderia estes trajes sob teus pés.
 Mas eu, sendo pobre, tenho só os meus sonhos.
 Estendo os meus sonhos  aos  teus pés
 Caminhe com suavidade porque você caminha neles"
12/23/2006

A Metade e O Inteiro by Cleide Valla

Eu nunca deixei nada pela metade,
pois sempre lutei para terminar
tudo o que comecei.

Nunca pensei ela metade.
pois o meio termo é dúbio,
e leva à interpretações errôneas.

Nunca dei meio passo,
ou teria andado apenas metade do meu caminho
ou teria vivido apenas metade do meu destino.

Nunca falei em meias palavras,
pois estas nos geram dúvidas
e nos sentenciam à solidão.

Nunca fui meio alguém,
apenas nunca encontraram
a outra metade de mim.

 
 
 
Acredito que nosso encontro está em alcançarmos o Outro... em um exercício de entrega solidária e muitas vezes solitária.
Penso que  minha forma de acreditar nos sentimentos da vida está  contrariando o que a maioria  das pessoas  categoricamente afirmam, pois sinto que  sempre há alguém em busca de nós.
E eu me encantei com esta "Metade e Inteiro"  de Mrs. Valla, especialmente com as palavras finais:  "Nunca fui meio alguém, apenas nunca encontraram a outra metade de mim."  Isso é lindo e doce!  Mrs. Valla sabe como poucos  a arte  de esgrimir palavras.
 
See you! 
10/18/2006

Pela Volta da Carta de Amor by Xico Sá

A carta escrita à mão, com local de origem, data, saudações, motivos, despeço-me por aqui, papel fininho
e pautado, pelos Correios, portadores ou menino de recados. 
Como canta o rei Roberto, escreva uma carta de amor, e diga alguma coisa por favor.
Em vez de dar de presente mais um celular ou outra obviedade comercial da praça, neste dia dos
pombinhos, surpreenda o mancebo ou a gazela com uma declaração derramada, selada, seguida de flores.
Pela volta da carta de amor.
Chega de emails lacônicos e apressados. Debruce a munheca sobre o papiro e faça da tinta da caneta o seu
próprio sangue.
Não temas a breguice, o romantismo, como já disse o velho Pessoa, travestido de Álvaro de Campos, todas
cartas de amor são ridículas, e não seriam de amor se ridículas não fossem.
A carta, mesmo com todas as modernidades e invencionices, ainda é o melhor veículo para declarar-se,
comunicar afinidades e iniciar um feitio de orações.
O que você está esperando, vá ali na esquina, compre um belo papel e envelopes, e se devote.
Se tiver alguma rusga, peça perdão por escrito, pois perdão por escrito vale como documento de cartório.
Se o namoro ainda não tiver começado, largue a mão dessas cantadas baratas e internéticas e atire a arrafa
aos mares. Uma boa carta de amor é irresistível. Mas não vale copiar aqueles modelos que vêm nos livros.
Sele o envelope com a língua, como nas antigas, lamba os selos, esse pré-beijo dos lábios da futura mada.
De novo Pessoa, para encorajá-los mais ainda: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”.
Às moças é consentido, além dos floreios e da caligrafia mais arrumadinha, a reprodução de um beijo, com
batom bem vermelho, ao final, perto da assinatura.
Uma carta, até mesmo de amizade, deixa a gente  comovido, como a que recebi outro dia de Fábio Victor,
escriba e amigo do Recife que habita a velha e fria Londres.
Que os amigos,e não apenas os amantes, se correspondam, fazendo dos envelopes no fundo do baú as
suas histórias de vida.
Pela volta da carta, que já é por si só uma maneira devota, um tempo que se tira, sem pressa, para
dicar-se  a quem se gosta. Pela volta da carta, pois o que se diz numa carta é de outra natureza, é o
bem-querer em  tom solene.
O que você está esperando, meu amigo, minha amiga, largue esse cronista de lado e debruce-se sobre a
escrivaninha. Uma mesa de bar ou de um café também são bons lugares para assentar as suas
mal-traçadas linhas.
Lembrei-me agora de um começo clássico de missivas: “Venho por meio desta dar-te as minhas notícias
e ao mesmo tempo saber das tuas...”
Um namoro, romance ou cacho somente à base de emails não se sustenta, mais parece uma troca de
ofícios, “venho por meio desta”, uma troca de protocolos, mensagens comerciais.
Um amor sem uma troca de cartas, nem que seja bem rápida, ainda não é amor.
 
 
Despertei com o som de meu e-mail, acusando a entrada de uma nova mensagem. Fiquei feliz quando identifiquei o
remetente e lí o título do assunto: "Olha, andando ví e lembrei-me de vc... abraços e bom dia".
Que forma mais agradável tem essa minha Amiga Flora de me despertar! Eu que sou uma apaixonda por cartas,
que cresci em um período um pouco mais romântico que hoje e  que sempre procurei entender meus sentimentos
através da poesia, me senti profundamente feliz com esta lembrança. 
Querida Flora, espero que esteja feliz em sua nova "casa", page: http://apenha.zip.net/
O que vc nao sabe, é que ainda esta semana eu estarei aniversariando e vc com sua lembrança, me deu um presente encantador!
Obrigada! Obrigada! Obrigada! Carinhos.
Curiosamente, alguém com muita timidez mas com muita habilidade com as palavras e de respostas
surpreendentes, me confidenciou que gostaria de receber uma carta... e eu já enviei sua carta!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9/10/2006

Voltar para Casa by David Redding

..."Lembro-me de que voltava da Marinha para casa pela primeira vez durante a Segunda Guerra Mundial. Minha casa situava-se tão no interior do país que, quando íamos caçar, tínhamos de seguir na direção da cidade. Nós mudamos para lá por causa da saúde de meu pai quando eu tinha 13 anos. Criávamos gado e cavalos.

Comecei a criar um pequeno rebanho de ovelhas Shropshire, do tipo completamente coberto de lã, exceto o nariz preto e as pontas das pernas negras. Meu pai as ajudava a ter seus gêmeos na época do nascimento, e eu reconhecia cada ovelha do rebanho a distância com facilidade. Eu tinha um carneiro muito bonito. Nosso vizinho era um homem pobre, dono de um belo cachorro e um pequeno rebanho de ovelhas que ele desejava aperfeiçoar com meu carneiro. Ele me pediu para emprestar-lhe o carneiro e, em troca, ele me deixaria escolher um cão da ninhada de seu cão premiada.

Foi assim que ganhei Teddy, um pastor escocês grande e negro. Teddy era o meu cachorro e fazia tudo que eu quisesse. Ele me esperava na volta da escola. Dormia ao meu lado e quando eu assobiava ele corria na minha direção mesmo que estivesse comendo. À noite, ninguém conseguia se aproximar sem a permissão de Teddy. Durante aqueles longos verões nos campos eu só via a família à noite, mas Teddy sempre me acompanhava. Quando fui para a guerra, não sabia como deixa-lo. Como explicar a alguém que o ama que você vai abandona-lo e não caçara marmotas com ele no dia seguinte como sempre fez?

Então, aquela volta da Marinha foi, portanto, algo que dificilmente consigo descrever. A última parada de ônibus ficava 22 quilômetros da fazenda. Desci ali naquela noite por volta das 23 horas e andei o resto do caminho para casa. Eram duas ou três da manhã e estava quase 800 metros de casa. Estava escuro como breu, mas eu conhecia cada passo do caminho. De repende, Teddy me ouviu e começou seu latido de advertência. Eu então assobiei uma única vez. Os latidos pararam. Houve um uivo de reconhecimento e eu sabia que uma enorme figura negra corria para mim na escuridão. Quase imediatamente ele me alcançou e veio para os meus braços. Até hoje essa é a melhor forma de traduzir em palavras o que quero dizer com voltar para casa.

O que me vem agora à lembrança é a eloqüência com que essa memória inesquecível fala do meu Deus para mim. Se meu cachorro me amou sem nenhuma explicação e me aceitou de volta depois de tanto tempo, meu Deus não faria isso?"

 

 Adaptado do  livro  "José", do autor Charles R. Swindoll.

 

9/6/2006

Jeitos de Amar by Adélia Prado

Uma personagem põe-se a lembrar da mãe, que era 
danada de braba, mas esmerava-se na hora de fazer 
dois molhos de cachinhos no cabelo da filha, para 
que ela fosse bonita pra escola.

"Meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor".
É comovente porque é algo que a gente esquece:
milhões de pequenos gestos são maneiras de amar.
Beijos e abraços são provas mais eloqüentes,
exigem retribuição física, são facilidades do corpo.
   
Porém há diversos outras demonstrações mais sutis.
Mexer no cabelo, pentear os cabelos, tal como
aquela mãe e aquela filha, tal como namorados
fazem, tal como tanta gente faz: cafunés.
Amigas colorindo o cabelo da outra, cortando
franjas, puxando rabos de cavalo, rindo soltas.
     
Quanto jeito que há de amar.
Flores colhidas na calçada, flores compradas, flores
feitas de papel, desenhadas, entregues em datas
nada especiais: "lembrei de você".
É este o único e melhor motivo para azaléias,
margaridas, violetinhas.
   
Quanto jeito que há de amar.
Um telefonema pra saber da saúde, uma oferta de
carona, um elogio, um livro emprestado, uma carta
respondida, uma mensagem pelo celular, repartir o
que se tem, cuidados para não magoar, dizer a
verdade quando ela é salutar, e mentir, sim, com
carinho, se for para evitar feridas e dores desnecessárias.
      
Quanto jeito que há de amar.
Uma foto mantida ao alcance dos olhos, uma
lembrança bem guardada, fazer o prato predileto de
alguém e botar uma mesa bonita, levar o cachorro
pra passear, chamar pra ver a lua, dar banho em
quem não consegue fazê-lo só, ouvir os velhos,
ouvir as crianças, ouvir os amigos, ouvir os parentes, ouvir.
     
Quanto jeito que há de amar.
Orar por alguém, vestir roupa nova pra
homenagear, trocar curativos, tirar pra dançar, não
espalhar segredos, puxar o cobertor caído, cobrir,
visitar doentes, velar, sugerir cidades, filmes, cds,
brinquedos, brincar...
     
Quanto jeito que há.
 
 
 
 
Acho que sair da cama, de pijama, em noites estreladas ou chuvosas, correr para Pier, onde é o melhor ponto para se falar através de um celular (*^%$@#^%*_***^%) rs rs rs,  ou ficar do lado de fora, sendo comida por mosquitos, para poder falar ao celular que não tem sinal dentro de casa rs rs rs,  também é um jeito  que há de amar... 
9/5/2006

Meditação à Beira de um Poema by Adélia Prado

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro

 

 

Tudo isso só porque é Setembro...

8/22/2006

Tipos de Amor by Francisco C. Xavier

Vida, é o Amor Existencial.
Razão, é o Amor que Pondera.
Estudo, é o Amor que Analisa.
Ciência, é o Amor que Investiga.
Filosofia, é o Amor que Pensa.
Religião,  é o Amor que busca Deus.
Verdade, é o Amor que se Eterniza.
Ideal, é o Amor que se eleva.
Fé, é o Amor que Transcende.
Esperança, é o Amor que Sonha.
Caridade, é o Amor que Auxilia.
Fraternidade, é o Amor que se expande.
Sacrifício, é o Amor que se Esforça.
Renúncia, é o Amor que se Depura.
Simpatia, é o Amor que Sorri.
Trabalho, é o Amor que Constrói.
Indiferença, é o Amor que se Esconde.
Desespero, é o Amor que se Desgoverna.
Paixão, é o Amor que se desequilibra.
Ciúmes, é o Amor que se Desvaira.
Orgulho, é o Amor que Enlouquece.
Sensualismo, é o Amor que se Envenena.
Finalmente, o Ódio, que julgas ser antítese do Amor,
não é senão o próprio Amor que Adoeceu gravemente.
 
 
7/20/2006

Amigos by Vinícius de Moraes

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

 

 

Para os Amigos que morreram e foram sepultados... Para os Amigos que ressurgiram como a fênix... Para os Amigos Virtuais, especialmente  aqueles que não desejo  dormir sem antes trocar algumas palavras no messenger... Para os Amigos virtuais que adoro visitar e os recebo em minha page... Para os Amigos que leêm meus pensamentos... Para Amigos que estão em outros continentes... Para os Amigos  que de uma forma muito especial nos reconhecemos... Para os Amigos do passado que só encontro em meus sonhos e sinto saudades...  Neste Dia do Amigo, para os Velhos, Novos e Futuros Amigos,  minha Amizade e meu afeto.

"Como os perfumes alegram a vida, assim o amigo dá animo para viver." (Bíblia - Livro de Provérbios 27:9)

"Uma amizade verdadeira é como uma alma em dois corpos." (Aristóteles)  

6/24/2006

Reticencias by Mariza Fontes de Almeida

Às vezes eu imagino
que tenho alguém
perto de mim...
Alguém que eu amo
e que me quer também;
que olha nos meus olhos,
que pega no meu rosto,
alguém que sabe o gosto
que o meu coração tem...
Sabe, de vez em quando
a minha imaginação
trabalha tanto,
que chego a ver você!
Chego a sentir sua mão!
Vê?...
Parece que você está aqui agora,
no entanto...
 
 
gosto das reticências... as vezes de uma virgula maluquinha, amo os dois amantes ; tenho medo do ponto final, as vezes fatal. As "" e os ( ) sempre serão voce.
 
 
 
 
Encontrei a poesia  de Mariza Fontes de Almeida, na page de uma  "Sra Cincuentinha" que encanta a todos que passam por seu endereço. Se desejar ter uma  ótima leitura e ver ótimas imagens,  não deixe de visitar a "Flora".
A poesia "Reticencias" é belissíma e não há o que comentar, pois hoje ela é a medida exata de meu coração...
6/1/2006

"Tudo o que chega, chega sempre por uma razão" by Fernando Pessoa

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final..
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Foi despedida do trabalho?
Terminou uma relação?
Deixou a casa dos pais?
Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu.
Pode dizer para si mesma que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.
Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso .... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.
Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem vc é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu própria, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és
E lembra-te :

“Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”  (Fernando Pessoa)
 
 
 
5/20/2006

Aprenda a Gostar de Você, a Cuidar de Você e, principalmente, a Gostar de Quem Também Gosta de Você... by Mário Quintana

A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando... a vida profissional, a monografia de final de curso, as  contas a pagar.
Mas uma coisa parece estar sempre presente... a busca pela felicidade com o amor da sua vida.
Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?"  e a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?".
Como diz o meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a gente achava que era.
Cada namorado era o novo homem da sua vida.
Faziam planos, escolhiam o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente...PLAFT! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar  mais expectativas a respeito "do próximo".
Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses.
Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva. Procura um cara formado, trabalhador,  bem resolvido, inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite.
Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó,que jogue "imagem e ação" e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando está de short, camiseta e chinelo.
A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação já não tem o mesmo valor que tinha antes.
A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas, mas continuamos  com a procura incessante por uma pessoa legal, que nos complete e vice-versa.
Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta...e haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira.
Sem falar na diversidade que vai do Forró ao Beatles.
Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer a barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som... olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora.
Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), que não  quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas  quem estava procurando por você!!!

 

 

Minha Mãe e minhas  Irmãs entendem como poucos de jardinagem.

Minha Mãe, Helena Ruth, tem um orquidário onde cultiva aproximadamente cento e cinquenta tipos de orquídeas. Ela o faz somente por prazer. Se deseja agradá-la, não pense em  roupas, sapatos, bolsas, jóias, etc... Compre um vaso de orquídea! E não importa se ela já tem um exemplar, ela ficará feliz da mesma forma.  Ela simplesmente ama flores, mas especialmente as orquídeas. Uma vez, ela cuidou de uma vaso durante sete anos (sete anos!!), até que em um determinado dia, os brotos surgiram e minha Mãe viveu o prazer de  ver as orquídeas , até então desconhecidas , ornamentarem  a casa.  O amor  e dedicação de minha Mãe, fizeram o "milagre" do florescimento daquela orquídea estéril.

Mãe, este post é para vc.  Eu que nunca entendi nada de jardinagem e na maioria das vezes quando vc viajava, me  ligava para lembrar de dar àgua para as plantas... rs rs ... Ou quando eu tinha  alguma planta em meu apartamento, vc ía até lá para cuidar delas. Hoje eu já aprendi a cuidar um pouco mais de plantas, mas certamente tenho muito para aprender. Desejo cuidar de meu jardim  com o mesmo amor que  sempre observei vc cuidar de suas plantas, flores e especialmente de suas orquídeas. Tenho  plantas em meu coração que precisam  do  mesmo cuidado  e paciência que a sua famosa orquídea,  que parecia estéril, mas que após sete anos floresceu. 

Flores de Orquídeas, de cento e cinquenta espécies, em seu travesseiro, para que tenha sonhos  perfumados e floridos.

5/1/2006

Não Sei by Cora Coralina

  Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós,

  Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,

  Se não tocarmos o coração das pessoas.

  Muitas vezes basta ser:

  Colo que acolhe,

  Braço que envolve,

  Palavra que conforta,

  Silêncio que respeita,

  Alegria que contagia,

  Lágrimas que corre,

  Olhar que acarícia,

  Desejo que sacia,

  Amor que promove.

  E isso não é coisa do outro mundo,

  É o que da sentido à vida.

  É o que faz com que ela não seja nem curta,

  Nem longa demais,

  Mas seja intensa,

  Verdadeira, pura...

  Enquanto durar.  

 

 

Quanto a doçura nas palavras, sinto que as pessoas não utilizam qualquer cerimônia para serem indelicadas e grosseiras,  porém quando se trata de demonstrar qualquer nuança de afetividade, elas já não sabem expressar o que há de doce em seus corações. É uma sensação inexplicável expressar afeto por alguém e muito superior ainda é o seu efeito.  Há um ditado indiano  que eu nunca esqueci: "É preciso comer coisas doces para ter palavras doces."   Sinto desejo de comer cada palavra de Cora Coralina. 

  

4/15/2006

O Pequeno Príncipe e a Raposa by Antoine de Saint-Exupéry

E foi então que apareceu a raposa.
__ Bom dia - disse a raposa.
__ Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, que , olhando a sua volta, nada viu.
__ Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
__ Quem és tu? - perguntou o principezinho.  __ Tu es bem  bonita...
__ Sou uma raposa - disse a raposa.
__ Vem brincar comigo - propôs ele.  __ Estou tão triste...
__ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa.  __ Não me cativaram ainda.
__ Ah! desculpa - disse o principezinho.
Mas após refletir, acrescentou:
__ O que quer dizer "cativar"?
__ Tu não és daqui - disse a raposa.  __ Que procuras?
__ Procuro homens - disse o pequeno príncipe.  __ Que quer dizer "cativar"?
__ Os homens - disse a raposa -  têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
__ Não - disse o príncipe.  __ Eu procuro amigos.  __ Que quer dizer "cativar"?
__ É algo quase sempre esquecido - disse a raposa.  __ Significa "criar laços"...
__ Criar laços?
__ Exatamente - disse a raposa.  __ Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E Não tenho necessidade de ti. E tu também não tem necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo...
__ Começo a compreender  - disse o pequeno príncipe.  __ Existe uma flôr... eu creio que ela me cativou...
__ É possível - disse a raposa.  __ Vê-se tanta coisa na Terra...
__ Oh! não foi na Terra - disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
__ Num outro planeta?
__ Sim.
__ Há caçadores nesse outro planeta?
__ Não.
__ Que bom! E galinhas?
__ Também não
__ Nada é perfeito - suspirou a raposa.
Mas a raposa retornou a seu raciocínio.
__ Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres  cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti.  E eu amarei o barulho do vento no trigo... A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:
__ Por favor... cativa-me! -disse ela.
__ Eu até gostaria -disse o principezinho -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
__ A gente só conhece bem as coisas que cativou -disse a raposa.  __ Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.  Se tu queres um amigo, cativa-me!
__ O que é preciso fazer? -perguntou o pequeno príncipe.
__ É preciso ser paciente -respondeu a raposa.  __ Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...
No dia seguinte o príncipe voltou.
__ Teria sido melhor se voltasses à  mesma hora -disse a raposa.  __ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.
__ Que é um "ritual"? -perguntou o principezinho.
__ É uma coisa muito esquecida também -disse a raposa.  __ É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adoram um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!
 
Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
__ Ah! Eu vou chorar.
__ A culpa é tua -disse o principezinho.  __ Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
__ Quis -disse a raposa.
__ Mas tu vais chorar! -disse ele.
__ Vou - disse a raposa.
__ Então não terás ganho nada!
__ Terei, sim - disse a raposa  __ por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
__ Vai rever as rosas. Assim, compreenderá que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.
 
O pequeno príncipe foi rever as rosas:
__ Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativaste ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo.
E as rosas ficaram desapontadas.
__ Sóis belas, mas vazias -continuou ele.  __Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mas importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.
 
E voltou, então, à raposa:
__ Adeus... -disse ele.
__ Adeus -disse a raposa.  __ Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
__ O essencial é invisível aos olhos -repetiu o principezinho, para não esquecer.
__ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
__ Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... -repetiu ele, para não esquecer.
__ Os homens esqueceram essa verdade -disse ainda a raposa.  __ Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
__ Eu sou responsável pela minha rosa... -repetiu o principezinho, para não esquecer.
 
 
 
De todos os personagens  do livro,  a Raposa sempre me encantou de forma singular.
Gosto de pensar  em seus rituais e  na forma  como ela se cala, observa  por longo tempo e finalmente verbaliza seu desejo de ser cativada... Por favor... cativa-me!  Cativa-me! 
 
 
4/12/2006

Ao Longe o Mar by Madredeus

Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Ainda não está perdido
No presente temor 

Não faz muito sentido
já Não esperar o melhor
Vem da nevoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei ao longe o mar
Ali fiquei,
Parada a olhar 

Sim, eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei ao longe o mar
Ali fiquei,
Parada a olhar

Quando avistei ao longe o mar
Sem querer,
Deixei-me ali ficar
 
 

O Avesso dos Ponteiro by Ana Carolina

Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede
O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Penso quando você partiu assim sem olhar pra trás
Como um navio que vai ao longe e já nem se lembra do cais
Os carros na minha frente vão indo e eu nunca sei pra onde
Será que é lá que você se esconde?
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
Tudo passa e eu ainda ando pensando em você
A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário
O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio
Aí começo a pensar que nada tem fim
Que nada tem fim
4/3/2006

As Pombas by Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E á tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...




A  primeira vez que li este poema, era quase adolescente ou melhor, ainda  era uma criança e estava descobrindo o prazer da leitura em minhas aulas de literatura.  A  professora  orientou a classe  na interpretação do texto, porém eu ainda  continuava não entendendo  muito bem a profundidade das palavras do poeta, quando comparava  o retorno das  pombas aos pombais com  alguns sonhos que não retornariam aos corações.
Sentia-me atraída pela  imagem  que a revoada das pombas proporcionava em minha mente e acreditava que já saberia reconhecer uma poesia: ..... Se houvesse  rima, seria uma poesia!...  Assim vivia eu  e as  pombas de meus pombais  em meu sopro de infância, sem imaginar que seria uma adolescente apaixonada por poetas.

Muitos anos mais tarde, quando voltei a  pensar  no  poema das  pombas, já  entendia seu  significado, pois  já havia me dado conta que  alguns de meus sonhos,  não haviam regressado ao meu coração. 
Também já havia entendido que  um poema, obrigatoriamente,  não necessita ter rimas.
Estava diante da Casa Rosada em Buenos Aires e observava a enorme quantidade de pombas que  ali ficavam aguardando que os visitantes ofertassem "choclo" (milho). Comprei vários saquinhos de milho e comecei a jogar  no ar para atraí-las. Depois,  já não mais jogava, apenas colocava os milhos bem próximos, para poder toca-las. Em  um determinado momento, as pombas venceram o medo e se  aproximaram de tal forma, que estavam em minhas mãos, ombros  e cabeça! 
Certamente me encantei muito mais com as  elas, que propriamente com a Casa Rosada.
Nesta época eu estava completamente feliz. Sentia-me apaixonada pela vida e conseguia contagiar  todos que estavissem ao meu redor. Sentia-me amada e estava falando a língua do país que eu havia adotado como minha segunda Pátria, a bela, charmosa e sempre encantadora Argentina!  Ainda me sentia  como uma criança, mesmo sendo uma balzaquiana.
 
Hoje, 25/03/04, alguns anos depois das “Pombas da Casa Rosada”, voltei a pensar  no  poema quando  soube que você lecionava  Literatura. Antes mesmo da chegada de sua original  carta eu  havia pensado em enviar algum texto de poeta brasileiro, foi então que pensei nas Pombas. 
Acredito que Raimundo Correia (1860-1911), não  tenha em Portugal a mesma popularidade que Cecília Meireles. Você já o conhecia? 
Uma curiosidade: Ele nunca gostou de ser chamado de “O  Poeta das Pombas”, pois dizia ter escrito dezenas de versos melhores.
3/22/2006

Conhecer o Caminho e Percorre-lo by Mário Quintana

Às vezes as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado. Às vezes nos falta esperança. Às vezes o amor nos machuca profundamente, e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa.

Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar, tanto quanto precisamos respirar.. é a nossa razão de existir. Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida, e se torna o nosso destino. Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa. Às vezes a dor nos faz chorar, nos faz sofrer, nos faz querer parar de viver, até que algo toque nosso coração, algo simples como a beleza de um por do sol, a magnitude de uma noite estrelada, a simplicidade de uma brisa batendo em nosso rosto, é a força da natureza nos chamando para a vida .

Você descobre que as pessoas que pareciam ser sinceras e receberam sua confiança, te traíram sem qualquer piedade. Você entende que o que para você era amizade, para outros era apenas conveniência, oportunismo.

Você descobre que algumas pessoas nunca disseram eu te amo, e por isso nunca fizeram amor, apenas transaram... descobre também que outras disseram eu te amo uma única vez e agora temem dizer novamente, e com razão, mas se o seu sentimento for sincero poderá ajuda-las a reconstruir um coração quebrado.

Assim, ao conhecer alguém, preste atenção no caminho que essa pessoa percorreu, são fatores importantes:

a) a relação com a família,

b) as condições econômicas nas quais se desenvolveu (dificuldades extremas ou facilidades  excessivas formam um caráter),

c) os relacionamentos anteriores e as razões do rompimento,

d) seus sonhos, ideais e objetivos.

Não deixe de acreditar no amor, mas certifique-se de estar entregando seu coração para alguém que dê valor aos mesmos sentimentos que você.

Manifeste suas idéias e planos, para saber se vocês combinam, e certifique-se de que quando estão juntos aquele abraço vale mais que qualquer palavra.. esteja aberto a algumas alterações, mas jamais abra mão de tudo, pois se essa pessoa te deixar, então nada irá lhe restar. Aproveite sua família que é uma grande felicidade, quando menos esperamos iniciam-se períodos difíceis em nossas vidas. Tenha sempre em mente que às vezes tentar salvar um relacionamento, manter um grande amor, pode ter um preço muito alto se esse sentimento não for recíproco, pois em algum outro momento essa pessoa irá te deixar e seu sofrimento será ainda mais intenso, do que teria sido no passado. Pode ser difícil fazer algumas escolhas, mas muitas vezes isso é necessário, existe uma diferença muito grande entre conhecer o caminho e percorre-lo. Não procure querer conhecer seu futuro antes da hora, nem exagere em seu sofrimento, esperar é dar uma chance à vida para que ela coloque a pessoa certa em seu caminho. A tristeza pode ser intensa, mas jamais será eterna. A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem.

 

 

Aprendemos devagar. Cada um em seu tempo, mas sempre devagar. Lenta  e difícil é a arte do recomeço.

3/8/2006

As Horas by Clarissa Biazuzo Ramos

[+] 13.9.04 [+]

Post: "As horas" - ou - Quem continua tendo medo de Virginia Woolf?

Tive tempo para pensar numa série de coisas que estava tentando não encarar... E, bem no dia emq ue me dei conta de que tenho me negligenciado, tive tempo para assistir ao filme "As horas". Não tenho vergonha de admitir: não consegui dormir naquela noite. Senti-me invadida, parecia que alguém tinha me entrevistado mas, sem nenhuma licença, teria se empossado da minha história e tranformado tudo em filme...
Claro que eu estou exagerando um pouco, mas, se não houvesse exageros, não seria eu. O fato é que eu de fato não consegui dormir depois de assitir ao filme. Porque tenho medo de ficar como a Virginia Woolf, ou como a própria Clarissa Dalloway, ou como qualquer mulher que vive uma vida que não quer. Tenho medo de despertar. Eu tenho medo de Virginia Woolf...
Aliás, quando assisti ao "Quem tem medo de Virginia Woof?", achei fantásticas as atuações da Elizabeth Taylor e do Richard Burton, mas elas não me afetaram como a atuação da Nicole Kidman, da Juliane Moore e da Meryl Streep, principalmente. Quem não assistiu, assista. Os dois. Ou leia o livro - o Mrs. Dalloway.

  

Eu também assisti "As Horas" e senti meu coração ser invadido por uma inquietude profunda. Não consegui dar forma gramatical ao sentimento que me invadia. Resolvi fazer uma pesquisa para melhor conhecer o livro, a escritora e o filme. Foi por acaso, mesmo acreditando que nada é por acaso, que encontrei o  Post acima no Blog de uma certa "Clarissa de Verdade"  http://www.clarissadeverdade.blogger.com.br

Inicialmente fiquei impressionada com o teor de sinceridade contido  em cada frase. A  resposta para o sentimento de inquietude que me invadiu eu encontrei no paragrafo: "Porque tenho medo de ficar como a Virginia Woolf, ou como a própria Clarissa Dalloway, ou como qualquer mulher que vive uma vida que não quer."   Eu também sentia medo de ficar como qualquer mulher que vive uma vida que não quer.

 

Querida Clarissa, considerando que vc tem a capacidade de dar forma gramatical para alguns de meus sentimentos, farei de suas palavras, as minhas: Depois disso, passamos a responder aos comentários uma da outra, áté o dia em que nos comunicamos por e-mail e, finalmente, pelo telefone. Não nos conhecemos pessoalmente, mas nunca foi necessário, porque eu a considero uma amiga - muito mais "real" do que muitas.

You're Beautiful, it's True!

3/3/2006

A Arte de Ser Feliz by Cecília Meireles

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco.
Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar.
Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las?
Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS,  quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e
outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
 
 
 
Eu tinha aproximadamente onze e doze anos quando  minha janela se abriu para a poesia. Eu estava na quinta série do Ginásio e ainda era muito criança. Eu simplesmente me encantei  com  "A Arte de Ser Feliz" e com sua autora. Conseguia imaginar  o cenário de cada  uma das janelas  e como ela, meu coração ficava completamente feliz.  Ainda hoje, quando encontro uma nova poesia, uma page com textos  de bom gosto,  música com sentimento e filme com arte, meu coração fica completamente feliz.
 
 
 
 
2/23/2006

Saudade by Mário Quintana

Na solidão na penumbra do amanhecer.
Via vc na noite, nas estrelas e nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via vc no ontem, no hoje, no amanhã...
Mas não via vc no momento.
Que saudade...
 
 
Para uma saudade de outro continente.